quinta-feira, 10 de agosto de 2017

REFLEXÕES SOBRE O UNIVERSO DO TERAPEUTA AUTÔNOMO

1.  Entendo perfeitamente que estejamos atravessando um momento de crise, e que a crise faz com que as pessoas tenham menos dinheiro ou, em o tendo, gastem menos com medo do futuro. Ok.
Só não entendo que pessoas contratem teu serviço, não te paguem, e pior, não te deem nenhuma satisfação.
Mas por outro lado, entendo perfeitamente o constrangimento e a vergonha por se ficar devendo, ok.
Penso que o constrangimento e a vergonha não deveriam ser maiores nem mais fortes que o bom caráter e a ética. Afinal ter, eventualmente, que dever, pode acontecer com qualquer um de nós.
Mais constrangedor ainda é o credor ter que ficar cobrando porque o devedor não se manifesta.
Quem deve, mesmo com motivos reais e justos, deveria procurar o credor e propor novas formas, mais viáveis, de pagamento ou no minimo dar alguma explicação e alguma desculpa, e não ficar se fingindo de morto.
Me parece que esta seria a forma mais honesta e bem educada de se proceder nestes casos.

2.  Vivemos uma cultura, um verdadeiro vício de pedir descontos.
Não sei se é uma característica tipicamente carioca, ou brasileira, ou latina, ou mesmo do ser humano em geral, mas o fato é que existe um sentimento coletivo de sempre ter que “se dar bem”, de “levar vantagem”, e isso não necessariamente tem a ver (e na maioria das vezes não tem) com falta de recursos.
Um fato, por exemplo, que várias vezes aconteceu com a gente, é a pessoa que nos procura profissionalmente, chora a maior miséria, desfia um imenso rol de dificuldades, pede desconto ou bolsa, a gente dá, e no meio do curso a pessoa troca de carro, ou no final do curso vai viajar prá Europa ou prá India... ou seja, economizou às nossas custas.
Eu acabei criando prá mim uma ética pessoal (e bem antes de ser terapeuta e professor) onde eu nunca peço desconto para serviços (terapia, médicos, cursos) e para alguns tipos de produtos (arte, artesanato). No máximo, se eu estiver realmente apertado, peço um prazo para pagar em mais vezes.
Acredito, como dinheiro é energia e valor (e valor tem a ver com auto-valor), pedir desconto – podendo pagar - traz nas entrelinhas a mensagem subliminar de que você acha que aquele trabalho não vale o que o profissional está cobrando. É uma forma inconsciente de desvalorizar o trabalho do outro.
É claro, que por outro lado, tem um exercício interessante de humildade, que é quando você realmente não tem dinheiro, quando você realmente não pode pagar, e quando você precisa realmente daquele serviço, aí você pede o desconto! Você não está querendo "se dar bem". E para ser bem justo e verdadeiro, devo salientar aqui que muita gente que nos procurou pedindo desconto se encaixava honestamente neste perfil.
Mas como disse, minha prática de 20 anos como terapeuta e 15 como professor, me mostram que estes casos são a minoria. A maioria é mesmo o velho vício de pedir desconto, de pechinchar.
Mas tudo isso é um grande aprendizado. Nós, terapeutas, não fazemos nosso trabalho só por dinheiro. E aí costumamos ser muito flexíveis, muito sensíveis e disponíveis para com as dificuldades de quem nos procura, muito abertos e tolerantes para negociar, e acabamos muitas vezes não tendo o retorno compatível à boa-fé e à confiança que depositamos no contrato que fazemos com clientes ou alunos que pedem descontos, prazos enormes ou formas pouco usuais de pagamento.
Durante quase uma década e meia tive essa mão aberta incondicional e irrestrita, atendendo aos pedidos de todos os que me procuraram (e nem precisavam insistir muito), e como se diz na gíria, “tomei algumas voltas” que infelizmente (ou felizmente) me obrigaram a passar a ser mais profissional, mais empresário, e colocar regras mais estritas.
Afinal somos autônomos, não temos carteira assinada, 13o., férias, FGTS, PIS, e assim como todos os mortais, pagamos impostos, contas, alimentação, etc. (e essa galera não nos dá descontos).
Continuo aberto para dar prazos, não trabalho mais com o sistema de depósito em conta que foi o sistema onde tive mais problemas (gente, fala sério, quem não tem cheque nem cartão, é porque tem problema com banco, e se tem problema com banco é porque não é bom pagador, na maior parte das vezes), e só dou desconto hoje para casos de excessão, para casos muito especiais.

3.  Além das vicissitudes que já citei nos outros dois tópicos, ainda temos que lidar com um estigma, que é o que eu chamaria de “obrigação da caridade compulsória”.
Infelizmente nossa área – das terapias transpessoais e energéticas – ainda é misturada, no imaginário coletivo, com religião e misticismo, e mais especificamente com as religiões do universo espírita (lembra do “fora da caridade não há salvação” e do “dai de graça o que de graça recebestes”?).
Esse estigma faz com que muitas pessoas ainda achem que, assim como acontece com os espíritas e umbandistas, nós também - porque trabalhamos com energia e sensitividade - deveríamos trabalhar de graça.
Com todo o respeito pelo Espiritismo – e eu super respeito e honro Kardec - discordo das duas máximas espíritas que citei acima.
Em primeiro lugar, na minha opinião, há salvação (seja lá como for que cada um entenda este conceito) em muitos outros caminhos, e não apenas através da caridade.
Em segundo lugar, não há nada que seja de graça no Universo.
Todo o Universo funciona, sistêmicamente, na base da troca, da auto-regulação, da lei harmônica e equilibrada do dar-e-receber.
Isso os orientais, por exemplo, já conhecem há milênios e a moderna Física Quântica está fartamente corroborando.
O que Kardec chamou de mediunidade não é um dom, é uma faculdade natural do ser humano (como aliás ele mesmo colocou).
Então ela não é alguma coisa que nos é dada de presente. Ela constitui uma parte, uma função sensorial do ser humano como qualquer um dos outros sentidos.
Se você hoje é portador de faculdades extra-sensoriais que se manifestam de forma explícita, não é porque Deus resolveu te brindar com um dom te recompensando porque você é uma pessoa muito bacana, mas porque provavelmente você já vem, há muitas vidas, “treinando” e despertando estas faculdades sensoriais através da sua jornada evolutiva, como deve ter acontecido com o Chico Xavier, por exemplo.
Isso aliás, vale prá qualquer talento. Ou você acha que a genialidade de um Van Gogh ou de um Mozart foi um presente que Deus resolveu dar prá eles porque eles eram uns caras muito legais?
Não estou dizendo, claro, que os espíritas e os umbandistas devam passar a cobrar pelo seu trabalho. Afinal a maior parte dos trabalhos feitos nestes grupos são realizados por seres de outras dimensões, que também estão em processo evolutivo, e que não se beneficiariam do dinheiro ganho. Ok. E também reconheço que a caridade é uma coisa muito importante e que deve ser sempre praticada.
Estou falando aqui, que terapias sensitivas e transpessoais são uma outra coisa, e que se encaixam em uma outra situação bem diferente.
Gastamos muito dinheiro com cursos e livros, gastamos muito tempo e neurônios estudando e praticando para podermos fazer um bom trabalho.
Ser terapeuta holístico não é nosso hobby, não é um trabalho caritativo voluntario que fazemos nas horas vagas (e quando já temos a nossa vida financeira equacionada).
E nem, por sermos terapeutas sensitivos, somos seres super evoluídos quase iluminados que estão muito acima da média humana, e que porisso poderíamos prescindir do dinheiro.
Somos profissionais, como quaisquer outros, que vivem do seu ofício e que pagam contas e impostos como qualquer mortal.
Por outro lado, nem todo terapeuta holístico é necessariamente religioso, místico ou esotérico. Por exemplo, eu pessoalmente não sou. Me considero genéricamente um espiritualista (ecumênico, eclético e universalista), mas estou muito mais prá Física Quântica do que para o misticismo.
E confesso que é um saco ter toda hora que ficar me deparando com criticas e cobranças (e às vezes até com ofensas) como se fossemos todos um bando de charlatões mercenários que só pensam em ficar ricos exercendo a nossa picaretagem e enganando as pessoas que sofrem e que nos procuram.



quinta-feira, 23 de março de 2017

DESAPEGO OU BAIXO VALOR?

DESAPEGO OU BAIXO VALOR?

Quando vejo colegas terapeutas ou pessoas espiritualistas e alternativas estabelecendo a remuneração dos seus trabalhos através de “contribuição voluntária”, “contribuição consciente”, “vamos passar o chapéu”, e outras desse tipo - como se essa atitude fosse o supra-sumo da atitude evoluída e desapegada - o que me vem como reflexão é exatamente o contrári
Quando você delega aos outros a atribuição do valor do seu trabalho, muito ao contrário de ser uma atitude espiritualizada evoluída, isso na verdade só contribui para emperrar mais ainda a roda da prosperidade, pois deixar que o outro arbitre o que seu trabalho vale não é desapego nem elevação, isso se chama BAIXO VALOR PESSOAL, MENDICÂNCIA, DEPENDÊNCIA.
E essas atitudes muito ao contrário de serem “nova era”, estão na verdade profundamente contaminadas dos velhos paradigmas cristãos (que ainda estão, infelizmente, profundamente arraigados no inconsciente coletivo da nossa cultura) que fazem com que ainda se acredite piamente que o dinheiro é sujo e impuro, que o que é de graça tem mais valor do que o que é cobrado e que dar é mais nobre do que receber, ou seja, quem ainda acredita nisso e norteia sua vida em função destas crenças, desconhece o básico do básico do funcionamento da energia e da visão sistêmica da vida.
Aí, claro, a prosperidade não gira e o colega “evoluído” geralmente tem constantes problemas com dinheiro e fica dependente da caridade dos pais ou dos “contribuintes conscientes”, o que em alguma hora, vai dar, amigos, raiva.
Porque quando os pais ou os contribuintes não suprem as expectativas e não correspondem às atitudes magnânimas dos “desapegados”, a galera vira ser humano rapidinho e fica com muita raiva, pois falta e não reconhecimento dão raiva (à menos que você seja uma Madre Teresa ou um Dalai Lama).
Então vamos desconstruir essas crenças caducas e pobres que se travestiram de evoluídas e espiritualizadas, e vamos nos empoderar do nosso auto valor e do nosso poder pessoal, e assim, gerar prosperidade com nosso trabalho. Gerar independência e autonomia, porque desapego e evolução espiritual não casam com dependência e mendicância.
Dinheiro é sagrado, dinheiro é energia (e é energia neutra, nem boa nem ruim). E você gastou muita grana (assim como tempo e neurônios) para ser o bom profissional que você é e merece ser recompensado dignamente por todo este esforço e dedicação.
E antes que me chamem de apologista do mercenarismo (eu sou macaco velho, tenho larga kilometragem e conheço bem as crenças e as falas dos “evoluídos”), já vou logo dizendo antes que venham com aquele mimimi : eu também atendo de graça, também dou muitas bolsas nos meus cursos. Ninguém deixa de ser atendido no meu trabalho por questões de grana.
Mas só quando me pedem (e quando eu julgo o pedido procedente) ou quando eu quero oferecer.
Pois quem manda no meu valor sou eu.


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

VOCÊ JÁ TEM UM NOME ESPIRITUAL ?

VOCÊ JÁ TEM UM NOME ESPIRITUAL ?

Periodicamente alguém me pergunta porque eu não uso mais o meu nome espiritual.
Aí, como é do meu costume, resolvi elaborar as reflexões advindas desta pergunta e compartilhar aqui neste texto.
Bem, em primeiro lugar, eu não pretendo aqui dizer para você ter ou não um nome espiritual, nem para afirmar que ter um nome espiritual é bom ou é ruim, é certo ou errado, é fundamental ou dispensável.
Só pretendo desenvolver o tema em função da minhas vivências e experiências pessoais nessa área e dividi-las com vocês.
Desde os meus 20 anos de idade, quando comecei a praticar Yoga, tenho meus pés “atolados na jaca indiana”, ou seja, desde esta época venho estudando, pesquisando e praticando esta cultura e suas filosofias e técnicas.
E assim, venho desde então me interessando por Yoga, meditação, Budismo,Tantra, Vedanta, Ayurveda, mantras, deuses e Gurus.
Tive até fases onde morei em ashram, ensaiei querer ser monje, enfim, embora nunca tenha ido fisicamente à India, a India veio profunda e poderosamente a mim por várias vias.
E seguindo minha natureza aquariana eclética e universalista, nunca pertenci ou me filiei a nenhuma instituição, seita ou organização religiosa, o que me deu muita autonomia, independência e liberdade para circular durante muito tempo por todo o universo oriental carioca, observando e aprendendo muito em todos os lugares que frequentei.
Nesse pacote que a India me ofertou, veio o privilégio de ter conhecido pessoalmente um ser muito especial que meu coração reconheceu como sendo alguém que “chegou lá”, ou seja, alguém que eu senti, intuí, que tinha alcançado o objetivo máximo que a espiritualidade hindu pretende que seja a meta última da existência – a Iluminação.
É claro que essa aferição é absolutamente subjetiva e pessoal, já que não existe um “iluminômetro” para determinar se uma pessoa se iluminou ou não.
 O fato é que, para mim, foi bastante impactante ter conhecido ao vivo e a cores uma pessoa que deu 3 voltas ao mundo descalço e com dois panos enrolados no corpo (e assim ele esteve a 50 graus no Oriente Médio e a mais de 20 negativos na Rússia), sem nunca portar nem pedir dinheiro, e sem ter fundado nenhuma organização nem ter tido milhares de discípulos, e cuja mente visivelmente não oscilava.
Ele era realmente a encarnação da renúncia e do desapego.
Este ser – Swami Tilak – esteve no Brasil nos anos 70 e retornou no início dos anos 80 (e desencarnou em 84), quando o conheci, e quando eu estava no auge da minha “viagem” monástica, querendo me iluminar ontem.
E dentro do universo hindu, um Guru é peça fundamental neste processo. Ser iniciado por um Mestre Espiritual verdadeiro é quase que fundamental nesse tipo de caminho. E na iniciação geralmente se recebe um nome espiritual e um mantra para meditar.
Bem, swamiji era muito resistente à ideia de iniciar pessoas e de ter discípulos, mas a insistência amorosa e bem intencionada de um pequeno grupo de brasileiros que “grudaram” nele igual aqueles bichinhos de luz que se amontoam em volta de uma lâmpada acesa, fez com que ele humildemente aceitasse dar iniciação às pessoas daquele grupo.
Estas iniciações aconteceram de diversas formas para diversas pessoas.
Comigo, minha iniciação começou quando pedi a ele um nome espiritual.
Lembro muito bem, o estávamos acompanhando em um evento alternativo rural em Visconde de Mauá.  Estávamos andando numa estradinha de terra indo para o local onde ele iria dar uma palestra, aí acionei a minha “cara-de-pau” e pedí: “Swami, pode me dar um nome?” (ele já tinha dado nomes para algumas pessoas). Ao que ele perguntou: “Por que você quer um nome”? E eu prontamente respondi: “Porque o nome que meus pais me deram não significa nada para mim”.
Ele parou, olhou no fundo dos meus olhos, ficou um pouco em silêncio, e com a voz de trovão que lhe era peculiar, falou: “Dharmendra”. E continuou andando.
Eu fiquei chapado, atordoado, meio doidão ali no meio daquela estradinha da Mantiqueira, não tive nem forças para perguntar o que significava (significa “Senhor do Dharma”), e até hoje estou digerindo e entendendo o espírito e a função desse nome na minha vida.
Quando um Mestre verdadeiro te dá um nome espiritual, é como se fosse um mantra também. É alguma potencialidade ou virtude que ele vê na sua alma e que você precisa desenvolver.
Por outro lado, este mesmo swami sempre dizia que usar um nome espiritual não deveria ser como usar uma jóia, um enfeite, não deveria ser como um objeto decorativo na sua vida, usado só para ter status.
Bem, e eu fui publicamente Dharmendra durante 20 anos. Fiz questão que todos me chamassem assim, inclusive os meus familiares. Imagina o choque para os pais que te deram com o maior amor um nome e agora você meio que o renega...
E claro, na época, na minha “arrogância aquariana”, eu me achava superior em relação ao que (eu acreditava que) eram os meus pais, afinal eu era vegetariano (e eles não), eu meditava e fazia yoga (e eles não), eu morava na roça em comunidade espiritual (e eles não), eu fazia parte de um seleto grupo de “escolhidos” para instaurar a Nova Era no planeta (e eles não)...enfim, eles eram pessoas muito bacanas mas eram fundamentalmente caretas, burgueses, urbanos e carnívoros, e era “óbvio” que um nome vindo deles não tinha nenhum significado maior nem tinha a menor força energética e espiritual.
Ok. Isso tudo vigorou até eu conhecer as Constelações Familiares.
Isso tudo foi assim até eu aprender, entender, aceitar e me curar em relação aos meus ancestrais. Até eu aprender a honrar, a ter profundo respeito e a ser imensamente grato a absolutamente tudo o que me veio deles, inclusive o nome que me deram.
E hoje eu acho totalmente infantil, ingênuo e até ignorante achar que o nome que eles me deram não tem significado nem força.
A partir daí, preferi guardar meu nome espiritual em meu coração como um elo interno e eterno entre eu e este ser especial que me deu este nome.
Hoje já não tenho mais meus pés atolados apenas na jaca indiana, mas também em outras jacas (como as culturas nativas e as terapias sistêmicas e transpessoais)
Hoje sou um ser humano comum (sem pretensões de ser santo nesta vida), sou terapeuta e trabalho com pessoas de todos os credos e crenças, e por isso prefiro me manter publicamente mais neutro.
E dessa forma, não uso roupas devocionais nem cerimoniais, nem batas indianas, penas, colares, nem nenhum adereço ou adorno religioso ou ritualístico de nenhuma cultura, justamente para que eu não seja identificado com algum caminho em especial.
Isso de alguma forma poderia induzir as pessoas a terem sobre mim alguma leitura determinada - achando que eu pertenço a alguma religião ou caminho espiritual específico, ou que sou superior a elas por ter um nome espiritual ou por usar adornos e adereços rituais - e isso poderia limitar o numero de pessoas que se aproximam de mim e do meu trabalho.
Se você acha que ter um nome espiritual e usa-lo publicamente é muito importante, bacana. Siga o seu coração.
Mas lembre-se que o ideal é receber um nome espiritual de alguém a quem você realmente se vinculou de forma verdadeira e profunda como seu Mestre, como seu Guru, e com o caminho que ele te oferece.
Isso vale também para quem segue o caminho nativo, o Xamanismo. Aliás, eu também recebi nomes espirituais no caminho nativo. Dois nomes. Só que nestes casos não foi porque eu pedi, mas espontaneamente os índios me deram.
Existem algumas organizações e mestres que saem dando iniciações e nomes espirituais rapidamente, antes que haja efetivamente um profundo vinculo com o mestre e com a sua escola, até como uma forma de atrair mais as pessoas.
E isso acabou meio que desencadeando quase que uma moda. Quase todo mundo que entra nesse universo espiritual – hindu ou xamânico - quer ter um nome espiritual.
E aí pode-se facilmente cair no ego de se sentir “o cara” por ter um nome espiritual, e, como dizia Swami Tilak, ficar usando um nome espiritual como quem usa uma bijuteria para se enfeitar, e para se sentir pertencendo a um grupo seleto de pessoas especiais.



quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

“VOCÊ NÃO ESTÁ AQUI PARA SALVAR O MUNDO, O MUNDO É QUE ESTÁ AQUI PARA SALVAR VOCÊ”

“VOCÊ NÃO ESTÁ AQUI PARA SALVAR O MUNDO, O MUNDO É QUE ESTÁ AQUI PARA SALVAR VOCÊ”.

Vi esta frase semana passada no Facebook, que se não me engano era de algum mestre oriental.
E esta frase suscitou reflexões que me convidaram a coloca-las no papel e a compartilha-las aqui.
Dentre as muitas coisas que só compreendi com a maturidade, uma delas é a enorme beleza e importância do impulso natural dos jovens de quererem salvar o planeta, de quererem mudar e melhorar a humanidade.
Eu pertenci a um nicho da minha geração que também pretendia mudar a consciência das pessoas e salvar a Terra.
Mais na frente, experimentei alguma decepção por não ter conseguido.
Mas adiante ainda, surgiu um sentimento de como seria inútil e quase infantilmente ridícula essa pretensão.
E só muito recentemente tive o insight de que esta atitude dos jovens – a de quererem mudar o mundo e transformar o ser humano – é absolutamente necessária e fundamental para se manter a dinâmica evolutiva do movimento sócio-antropológico (e claro, psicológico, emocional e espiritual também) da humanidade.
É esta força e idealismo – característica constitucional e visceral dos jovens conscientes, bem intencionados e pró-ativos – que vai podando o velho e fazendo emergir o novo, num importantíssimo movimento de reciclagem.
Só os jovens, que tem a força e a vitalidade da juventude, o frescor da vida e o pouco passado e muito futuro, é que podem (e devem) ser a força motriz desse movimento, geração após geração.
É como fazer o trabalho de extrair da terra um diamante bruto e limpá-lo das impurezas para expô-lo ao Sol e aos nossos olhos.
Mas só a maturidade – etária, existencial, intelectual e emocional - é que vai poder lapidar este diamante. Muito passado e pouco futuro dão (ou deveriam dar) ponderação, sabedoria, prudência, equanimidade, serenidade, discernimento.
E essa maturidade é que tem as ferramentas e os subsídios para efetivamente fazer o também fundamental trabalho de se mudar e melhorar o mundo interno. E é na maturidade que se compreende na prática - porque se constatou com a experiência - que não se muda nada fora sem se mudar dentro, e que o externo é apenas um laboratório, uma escola, para que se possa acessar e melhorar o interno.
E o conflito das gerações é que é o combustível (e a tensão) dessa engrenagem. Os jovens querendo mudar e os velhos querendo manter.
Esse “cabo-de-guerra” é a própria expressão do exercício que acaba trazendo, geralmente, a auto-regulação necessária.
Uma auto-regulação que harmoniza e equilibra o ímpeto guerreiro e impulsivo dos jovens, com o enraizamento - ora acomodado e receoso das mudanças, ora sábio e prudente – dos mais velhos.
Aí passo-a-passo o velho vai sendo substituído pelo novo.
Esse “cabo-de-guerra”, o chamado conflito de gerações, fala sobretudo da característica fundamentalmente importante dos jovens de pensarem e fazerem diferente da geração anterior.
É claro que estou generalizando, pois estou procurando ter um olhar mais panorâmico. Sei perfeitamente que os processos são muito mais complexos. Muitos erros, percalços e mudanças de rotas acontecem ao longo do caminho (e é desejável que aconteçam para poder haver mais aprendizado).
Mas no cômputo geral, o que acaba importando mesmo, é o quanto estas dinâmicas - nem sempre harmoniosas e pacificas - são fundamentais para manter a engrenagem do samsara rodando. Manter a espiral da Criação crescendo, evoluindo e constantemente se expandindo.
Pertenci a um segmento da minha geração – a chamada geração aquariana - que com certeza foi muito emblemático: a geração dos anos 70, do tempo da ditadura, e que optou por trilhar os caminhos emergentes da contracultura, do movimento hippie, e mais adiante, do nascimento da cultura alternativa – o inicio da consciência ecológica, das terapias naturais, da espiritualidade oriental, da agricultura orgânica, das comunidades rurais, da alimentação natural.
Talvez tenha sido uma das gerações que mais teve esse foco e este sentimento de estar surfando uma onda pioneira, uma vanguarda que ia fazer uma grande diferença no planeta.
E até fez mesmo. Não exatamente como a gente sonhava e esperava, mas esta geração foi, sem dúvida, a sementeira de uma consciência e uma praxis que hoje está amplamente disseminada no dia-a-dia população (infelizmente ainda não na massa miserável) e na mídia.
Hoje, por exemplo, a agricultura orgânica é uma das atividades que mais cresce no mundo, hoje temos yoga, meditação, homeopatia, acupuntura e reiki em muitos serviços públicos de saúde, coisas estas que há quase meio século atrás eram apenas papo de cabeludo hipponga utópico e sonhador.
E dentre alguns equívocos que, na minha opinião, foram cometidos por grande parte desse segmento da minha geração, foi o de querer moldar os filhos para que seguissem o mesmo caminho.
Afinal, nós éramos (perdão, nos considerávamos) a elite do planeta, o povo (finalmente!) consciente que estava acima caretice da burguesia consumista, carnívora e urbana. Nós nos sentíamos os escolhidos para inaugurar uma Nova Era!
E com toda a nossa boa intenção e idealismo procuramos “fazer a cabeça” da filharada, pois em nosso coração era óbvio que nossos filhos quereriam seguir nossos passos, porque, afinal de contas, estávamos fazendo aquilo que era o “melhor” e o “mais certo”. Havíamos descoberto a pólvora que salvaria o planeta.
Ou seja, estávamos morando na roça em comunidades, comendo natural, meditando e fazendo yoga, plantando orgânico e vivendo uma vida simples, pacífica e sem consumismo. Tudo, óbviamente, coisas super bacanas e verdadeiras.
Só... que isso era a nossa opção, estas eram as escolhas de nós, adultos.
O tempo foi passando, as crianças foram crescendo e foram tendo vontades próprias, tendo outros interesses, outras demandas, outras curiosidades. E foram sendo “contaminadas” pelo “vírus sócio-antropológico” de fazer diferente da geração anterior para cumprir seu papel de continuar movendo a roda.
E hoje, quase meio século depois, vejo que apenas uma minoria das crianças daquela geração seguiu o mesmo caminho dos pais.
É bem verdade também, que uma minoria dos pais continuou seguindo estritamente o mesmo modus vivendi de outrora.
E com meus filhos não foi diferente (nem comigo). Em um primeiro momento me senti meio decepcionado comigo, fiquei sentindo que eu tinha sido pouco focado, pouco disciplinado, pouco virtuoso. Me senti como se tivesse sido pouco competente, pouco coerente, porque meus filhos não seguiram, claro, estritamente os meus passos, a minha filosofia e ideologia.
E aí, como muitos (talvez a maioria) da minha geração “drop out”, por causa dos filhos, por causa da vontade deles de experimentar o mundo e de terem as suas próprias escolhas e oportunidades, saí da roça e voltei para a cidade.
Em um primeiro momento foi como uma derrota, quase uma traição aos meus princípios.
Mas aos poucos fui entendendo uma outra dinâmica, uma outra forma de olhar o processo. A “quebra” dos meus princípios e escolhas ocasionada pelas demandas dos filhos, trouxe um imenso, amplo e profundo aprendizado de maturidade, de humildade, de neutralidade e de flexibilidade, e isso foi o estopim de muitos importantes upgrades em minha vida.
E no frigir dos ovos, me tornei uma pessoa saudável e humanamente comum (não mais a elite salvadora do planeta, mas ainda mantendo a essência do que eu acreditava e praticava), e meus filhos, que não moram na roça, não são ligados em filosofia oriental nem professam nenhum “credo” alternativo, foram profundamente marcados pelo que, na verdade, é muito mais importante do que o lugar onde se mora, a roupa que se usa, a musica que se ouve e a comida que se come: foram profundamente forjados na consciência do bom caráter, da ética, da moral, da compreensão do karma, do respeito à vida, aos outros, à Mãe Terra e ao que cada um deles entende como sendo Deus.
E eu, da minha parte, observo com carinho (e com vibrante torcida) os jovens alternativos de hoje que são o “eu ontem” tentando mais uma vez salvar o planeta e a humanidade. E espero viver o suficiente para quando eles forem o “eu hoje” nós possamos conversar e trocar as nossas ricas vivências e experiências.
E foi muito bom ter conseguido - apesar de, durante algum tempo, ter tentado fazer meus filhos seguirem meu estilo de vida (e de algum dissabor inicial quando percebi que não tinha exatamente conseguido da forma como pretendia) - não fomentar excessivos conflitos de gerações. Com certeza o “gap” entre eles e eu foi muito menor do que o que existia entre meu pai e eu, e isso, com certeza, já foi um grande ganho para todos. E provavelmente, espero, para o planeta e para a humanidade também.


domingo, 29 de janeiro de 2017

SOBRE A INTOLERÂNCIA RELIGIOSA
I. Eu tive um professor que dizia que a humanidade é como um bolo onde Deus é aquele furo no centro do bolo e cada religião seria um fatia do bolo.
O problema é que fica cada fatia querendo convencer o resto do bolo de que ela, fatia, é o bolo inteiro. Interessante como o ser humano há milênios vem guerreando e se degladiando ferrenhamente pelo que não concorda - que em termos de religião, cá entre nós são os aspectos mais desimportantes, isto é, o nome do meu Deus, minha concepção Dele, meu livro sagrado é tal e é o único verdadeiro, meu mestre ou avatar é tal e é o único e o melhor, e por aí vai.
Curiosa essa tendência do homem de investir pesado na exclusão, na divisão.
Talvez a chave para essa cura não seja nem ter religião nenhuma nem ter uma só religião para todos - acho as duas possibilidades fantasiosas - mas sim o simples e vital fato de pessoas de uma religião conseguirem perceber e aceitar que as outras também são tão verdadeiras e certas quanto a sua.
Muito doida essa mania de se querer ter exclusividade.
Se Deus criou a diversidade, um planeta com bilhões de espécies de todos os reinos, um monte de raças e culturas com milhares de idiomas e características históricas, geográficas, sociológicas e antropológicas diversas, é totalmente irracional e bastante pouco inteligente achar que uma só religião vai servir para todos, e mais irracional ainda é querer estabelecer isso na marra...
Por outro lado cresce cada vez mais a compreensão de que é muito mais bonito, pacífico e inteligente os diversos caminhos compartilharem naquilo que concordam, e não ficar brigando pelo que discordam.
E se tirar o desimportante e o superficial das religiões (que é aonde as pessoas mais se apegam), todas elas concordam muito mais do que discordam, pois o Deus de todas é o mesmo e os princípios mais básicos e fundamentais também.
Dentro dessa temática, me parece que três componentes são fundamentais serem devidamente destrinchados para serem corretamente entendidos:
Compreensão, aceitação (vou chamar aqui de aceitação o ato de concordar) e respeito.
Para verdadeiramente se respeitar – e vamos nos ater aqui ao tema religião – não é preciso concordar, mas é preciso compreender.
Compreensão é entender o ponto de vista do outro, é entender as características, as motivações, os contextos e os referenciais do outro.
Quando avaliamos uma outra religião ou uma outra cultura usando como parâmetro os nossos próprios referenciais, o que estamos exercitando é julgamento, o que normalmente acaba descambando em crítica e condenação.
Para compreender o outro é necessário, como dizem os índios norte-americanos, vestir o mocassim do outro.
É preciso considerar, como disse acima, o universo do outro com seus contextos e características próprias, como um cientista que busca conhecer o que está analisando, com neutralidade e isenção.
Respeitar sem compreender não é respeitar. É tolerar, no pior sentido do termo. É engolir, aturar, suportar.
Respeitar não é necessariamente concordar. Respeitar é reconhecer valor no outro.
E eu só posso reconhecer valor quando eu compreendo.
Talvez o ser humano precise desenvolver a habilidade de compreender mesmo não concordando.
Daí talvez surja o verdadeiro respeito.
Trazendo estas questões para a esfera das terapias, o que seria focado e trabalhado é: que memórias e registros difíceis do passado, que experiências dolorosas e limitadoras uma pessoa viveu que nesta vida, nesta personalidade atual estão eclodindo como uma necessidade de se ser radical, intolerante, fanático.
Que inseguranças, medos e carências são essas que precisam de uma atitude extrema de julgamento intolerante e segregação às vezes violenta para com o outro para que a pessoa se sinta com auto-estima e mais valia, ou para que se sinta pertencendo?
Ou se é alguém que seguidamente sofre com intolerância, radicalismos e bullying religioso, numa terapia sistêmica, como Alinhamento Energético, por exemplo, a pergunta terapêutica seria: aonde eu ainda não sou forte na fé, aonde em mim eu ainda dou valor ao julgamento alheio, aonde em mim minha auto estima e minha mais-valia ainda são frágeis?
Ou então: aonde em mim eu ainda sou intolerante e radical comigo mesmo em alguns setores internos da minha vida, aonde eu ainda me critico, me trato mal, me julgo, que eu precisei atrair no meu campo atitudes de intolerância, julgamento e preconceito para me indicar sistêmicamente aonde isso ainda vigora dentro de mim para comigo mesmo e poder assim trabalhar e transmutar isso?

II. Há algum tempo venho matutando sobre os cristãos usarem o termo “A palavra de Deus” para se referirem à Bíblia.
E o primeiro pensamento que sempre me vem à mente ao ouvir isso, é que, até onde eu saiba, Deus nunca desceu à Terra com papel e caneta para escrever alguma coisa.
Ok, tô sabendo, Deus se utiliza de pessoas especiais para se manifestar através delas, como por exemplo – no caso da Bíblia – aconteceu com Moisés (que serve tanto para os judeus quanto para os cristãos), com os profetas e com os apóstolos.
O segundo pensamento que me vem em seguida, é sobre o que me parece ser a característica mais evidente de Deus em sua Criação – a diversidade.
E Deus caprichou na diversidade. São incontáveis tipos de minerais, vegetais, animais e raças humanas (com seus absolutamente singulares rostos e impressões digitais).
Porque então esse Deus da diversidade, só no que se refere à religião, seria exclusivista?
Para mim, me parece totalmente infantil e ingênua a ideia de que uma única religião, um único livro sagrado ou um único “salvador” sirva para todas os inumeráveis povos e civilizações sobre a Terra, com sua imensa diversidade histórica, geográfica, cultural, antropológica e sociológica.
Então não parece muito mais óbvio e lógico que esse Deus da diversidade, respeitando essa imensa diversidade que Ele mesmo criou, se manifestasse e se revelasse indistintamente para TODAS as civilizações e culturas, respeitando suas características históricas, culturais, antropológicas, etc.etc.?
Se você não é fanático religioso e nem está preso na ilusão de que só a sua religião é que é a certa e a melhor, pode, com um pouco de informação, perceber que Deus se utilizou de pessoas especiais para se manifestar e se revelar, ao longo de toda a história da Humanidade.
E aí podemos ver Maomé com seu Corão (o Islamismo), Vyasa com os Vedas (o Hinduísmo), Lao Tsé com o TaoTeKing (o Taoísmo) e por aí vai. E estes são só alguns. Todas as religiões tem seus profetas, seus livros sagrados e seus salvadores.
Se você não é fanático religioso e nem está preso na ilusão de que só a sua religião é que é a certa e a melhor, pode, com um pouco de informação e estudo das outras religiões, comprovar que TODOS os livros sagrados falam a mesma coisa.
Se você conseguir ser aberto e souber separar a essência dos ensinamentos da práxis religiosa e dos contextos históricos, culturais e sociais característicos das épocas em que estes livros foram escritos, poderá facilmente perceber que eles falam absolutamente a mesma coisa.
Ou seja, TODAS as religiões falam a mesma coisa pelo simples fato de que o Deus de cada uma é o mesmo Deus, independentemente dos incontáveis conceitos teológicos existentes.
Veja por exemplo: compare os Dez Mandamentos (dos cristãos e judeus) com os Yamas e Nyamas (do Hinduismo) e com o Caminho Óctuplo de Buddha, e você vai ver que falam absolutamente a mesma coisa. E olha que são muitos séculos de distância entre uns e outros escritos.
E aí, podemos ver claramente, que as “guerras santas” e que as abundantes formas de preconceitos religiosos que acontecem desde sempre na história do homem sobre a Terra, tem suas origens (vendo aqui apenas os aspectos religiosos da coisa) no que há de menos importante nas religiões: “Meu Deus é mais verdadeiro que o seu deus”, “Minha escritura sagrada é mais sagrada do que a sua”, “Eu sou de Deus e você, de outra religião, é do Demônio”, “Só o meu salvador é que salva”, “Minha Terra Santa é mais santa do que sua”, e por aí vai...
Porque se você realmente ler com espírito aberto e com um olhar isento e inteligente todas as “palavras de Deus” das variadas religiões, vai ver que, na essência, no que é realmente relevante e fundamental para o ser humano, TODAS FALAM AS MESMAS COISAS.
E como insight final, sempre me vem o sentimento de como é difícil para o ser humano - mesmo professando e crendo em uma determinada religião, adotando determinada abordagem teológica – considerar que o outro que professa outro credo, que tem outra religião, também está tão certo quanto você e que a religião dele é tão boa e tão verdadeira quanto a sua.
Isso é inteligência e maturidade espiritual. Isso é compaixão. Isso é fraternidade.


MEDITAÇÃO E TERAPIAS. CORAGEM E HUMILDADE.

I.                Me parece – como resultado parcial da minha reflexão em função de 40 anos de buscador e quase 20 de terapeuta – que a espinha dorsal, o foco central de qualquer processo de auto conhecimento e de cura deveria ser a meditação.
Quase todas as culturas antigas parecem corroborar este fato.
E quase todas estas culturas desenvolveram técnicas e métodos não só de meditação como também de práticas acessórias que vão dar suporte e complementar este exercício.
E o que me parece mágico é que meditação, como técnica, é a coisa mais simples que existe, oferecida para se resolver a mais complexa – a questão do equacionamento do sofrimento e das limitações humanas, e a re-experienciação de quem realmente se É.
Então eu queria aqui refletir sobre o processo da meditação como um todo, em seu aspecto mais amplo.
E vou focar aqui nas culturas orientais, que são as que conheço melhor.
Percebo que todas estas culturas desenvolveram, não só variadas técnicas de meditação, como também de práticas e exercícios que tem a função de complementar, elaborar, e expandir para todo o complexo humano, os benefícios auferidos com a prática da meditação.
Estas antigas culturas percebendo a complexidade do ser humano, não só desenvolveram estruturas de conhecimento e de técnicas que se propõe a trabalhar toda a dimensão do ser humano, mas também abordando o trabalho sempre do interior para o exterior e do exterior para o interior.
Assim, vemos por exemplo, no Yoga, como todas as abordagens – Jñana, Bhakti, Karma, Raja, Hatha – contém em si todas elas. 
Impossivel, por exemplo, Karma Yoga sem Bhakti, sem Jñana, sem meditação, sem trabalhar a dimensão psico-física, e por aí vai, numa compreensão milenar da natureza holística e sistêmica do ser humano.
Uma outra característica fundamental das culturas orientais é a presença de um Guru, de um Mestre espiritual.
Desta forma, o Guru pode desempenhar quatro funções na vida de um discípulo:
- Oferecer sua Luz, seu Amor, sua Paz, sua Energia
- Oferecer seu conhecimento e sabedoria
- Oferecer seu exemplo de vida
- Oferecer sua companhia física no dia-a-dia do aprendizado do discípulo.
Para se beneficiar dos três primeiros quesitos não é necessário que o Guru esteja vivo. Todos os devotos de seres iluminados como Ramana Maharshi, Ramakrishna, Nisargadatta, Yogananda, entre outros, recebem a Luz, os conhecimentos e o exemplo de vida de seus Mestres sem precisar te-los conhecido pessoalmente.
Mas tem o quarto quesito, onde o Guru funcionava como uma espécie de terapeuta, ajudando ao discípulo à compreender, elaborar, transmutar todo o material psico-emocional-energético que era liberado através das práticas de meditação, dos estudos, das práticas devocionais, das práticas psico-físicas.
Quando, lá pelos idos dos anos 60 e 70, a cultura oriental “invadiu” o ocidente, vieram os livros, vieram as técnicas, a culinária, as músicas, mas vieram pouquíssimos Gurus, e muito pouca gente pode se beneficiar do dia-a-dia com um Mestre ao seu lado dando suporte às práticas, aos obstáculos e aos resultados delas.
E aí, na minha “viagem na maionese” eu penso que a consciência planetária vendo isso, e vendo que o ocidente ia acordar para o acesso a dimensões e níveis de realidade bem mais amplas e profundas de si e da vida, e percebendo que a figura do Guru não faz parte da realidade ocidental, precipitou a figura do terapeuta.
Inicialmente através da Psicologia e da Psicanálise, e depois das terapias em geral.
O terapeuta viria cobrir a lacuna da quarta função do Guru, a de facilitar o acompanhamento e o suporte de um dia-a-dia no exercício de técnicas e métodos de auto cura e de auto conhecimento.
A diferença é que o Guru é um ser iluminado capaz de enxergar a profundidade da mente e da alma de seu discípulo. Sua função maior é levar o discípulo à iluminação, à experienciação de quem ele realmente É.
O terapeuta é um técnico, que aprendeu um método - e que se submete também a ele - e que está habilitado a dar suporte terapêutico no decorrer da jornada de seu cliente. Sua função é a de ajudar ao cliente a viver da melhor forma possível a sua humanidade.
Uma outra coisa que acabou acontecendo com a chegada do mundo oriental no ocidente é que o conhecimento veio fragmentado.
Os orientais sabiamente desenvolveram estruturas filosóficas, corpos de conhecimento, onde o discípulo trabalhava e exercitava todas as dimensões do seu ser – corpo/emoções/mente/energia/espírito – com um corpo de técnicas e métodos que envolvia todos os níveis e dimensões do discípulo.
Então, sob a supervisão de um Guru, ele meditava, estudava as escrituras, fazia exercícios psico-fisicos (como Hatha Yoga), se educava em conceitos éticos e morais, exercícios devocionais, etc.
Quando estas culturas chegaram aqui, elas não vieram trazendo toda esta complexidade, todo este corpo de conhecimentos e técnicas, até porque quando uma cultura entra em outra, ela nunca entra inteira, dadas as diferenças (e os impecílios) de ordem geográfica, histórica, cultural, antropológica e sociológica.
Então as técnicas que antes eram realizadas dentro de um conjunto de procedimentos, passaram a serem feitas e exercitadas isoladamente, como, por exemplo, a meditação e o Hatha Yoga, que foram as que mais se notabilizaram aqui.
E na minha opinião, esta fragmentação, aliada à falta do Guru presente, de alguma forma diminuiu e sub utilizou a potência e a eficácia destas técnicas, segundo o objetivo e a efetividade a que elas se propunham quando em seus locais e culturas de origem.
Neste processo inteligente da consciência planetária, onde percebendo a futura eclosão desta expansão, precipita a Psicologia criando a figura do terapeuta, ela pretende que as terapias possam de alguma forma suprir estas lacunas, servindo como auxilio e suporte nos processos de auto conhecimento e de cura psico-emocional.
Achar que a sua religião, ou a sua escola de filosofia ou a sua linha de psicologia, de terapia ou de meditação é a única boa ou é a melhor de todas, é fanatismo. Agora, achar que todas as suas questões existenciais, psico-emocionais e espirituais vão ser resolvidas apenas pela sua religião, pela sua escola de filosofia ou linha de psicologia, de terapia ou de meditação, ou é ingenuidade ou é ignorância.
Não existe panacéia, portanto não existe nenhuma religião, filosofia ou terapia que seja boa para tudo, para todos, o tempo todo. É necessário ter-se a humildade e a coragem (e a consciencia) de aceitar o poder da sinergia, da integração dos caminhos, de buscar ajuda em outras linhas e escolas.

Voltando ao inicio da conversa, e trazendo-a para meu universo particular pessoal e profissional, penso que as terapias são poderosas ferramentas auxiliadoras e complementadoras das práticas de meditação e de Hatha Yoga, ajudando a processar e transmutar mais rapidamente o material psico-emocional em sofrimento e limitação que emerge do inconsciente através destas duas práticas, e consequentemente ajudando a tornar mais efetivos e profundos os efeitos destas práticas, e de forma mais rápida e otimizada.

    II.   Na minha opinião, absolutamente nenhuma religião, linha de psicologia ou de terapia, tradição espiritual, técnica de cura ou escola de filosofia, pode ser boa para todos, para tudo, o tempo todo.

   O que quer dizer que, na minha opinião, qualquer religião ou tradição espiritual, linha de psicologia ou técnica de cura vai - em algum momento, em alguma circunstância e contexto, e para algum caso ou para alguma pessoa - ter contra indicações e/ou efeitos colaterais.

    Ou seja, não existem panaceias.

    Penso que em um universo onde a relatividade é sua característica inerente e constitucional, é impossível qualquer coisa existente ter um valor absoluto.

    E nesta realidade relativa e dual, qualquer coisa pode ser boa ou ruim, certa ou errada, negativa ou positiva, adequada ou inadequada, dependendo em um complexo conjunto de fatores.

    Então... talvez seja interessante que terapeutas, curadores, psicólogos e lideres espirituais tenham a humildade (e a coragem) de reconhecer os limites do caminho que disponibilizam e facilitam para o outro, e que eventualmente recomendem outros tipo de terapias ou de caminhos de cura para seus clientes, pacientes e/ou discípulos.

    Só acredito na sinergia, não acredito em competição nem em “choque de egrégoras”.

     Claro que existem maluquices misturebas picaretas e irresponsáveis por aí, mas acredito que são minorias.

     Mas o que tenho percebido – infelizmente também ainda em minoria - são terapeutas e curadores abertos e responsáveis (e corajosos) que - modéstia à parte, como nós - eventualmente recomendam que seus clientes procurem outras terapias e caminhos de cura mais adequados àquele caso ou àquele momento.

      Não acreditamos (e não nos importamos) em “perder clientes” pois segurar um cliente em uma terapia que não está evoluindo, quem sempre perde é o cliente. Ou seja, para nós, o cliente é mais importante do que ser nosso cliente.

     Assim como acreditamos que os seguidores de religiões não perdem nada quando reconhecem que o caminho que estão trilhando já não oferece alimento integral para suas demandas humanas e espirituais, e resolvem migrar para outra religião ou tradição.

    Ou assim como quando os seguidores de religiões entendem humildemente que às vezes é preciso recorrer paralelamente a outros caminhos – como por exemplo, fazer terapia – para otimizar seu caminho evolutivo.

    E isto em nada macula ou trai sua religião nem tampouco passa um atestado de ineficiência para o caminho espiritual que escolheu trilhar.

   Assim como quando um terapeuta recomenda a seu cliente outro tipo de terapia, não está atestando que sua técnica é ineficiente ou inferior.

   Coragem e humildade são dois ingredientes fundamentais para se crescer e se expandir.




      


MINHA HUMANA ESPIRITUALIDADE

I. Minha espiritualidade não está vinculada específicamente a nenhuma religião, tradição espiritual, seita ou escola filosófica ou psicológica.

Minha espiritualidade não está vinculada a nenhum Mestre, Guru, Guia ou Santo em especial.

Minha espiritualidade não está vinculada a nenhum ritual ou cerimônia religiosa.

Minha espiritualidade não privilegia nenhuma cultura, escritura sagrada nem nenhum tipo de musica sagrada em especial.

Minha espiritualidade não está vinculada a roupas, adereços e objetos religiosos de nenhuma cultura.

Minha espiritualidade também não critica, não desrespeita, não julga e nem discrimina quem está vinculado ao que citei acima.

Minha espiritualidade aceita como igualmente verdadeiras e sagradas todas as culturas, todas as religiões, tradições, Mestres, Gurus, escrituras sagradas, rituais e cerimônias.

Minha espiritualidade é a da pessoa comum, simples e humana, que como filha do Universo caminha rumo a Si.

II. Eu devo ser muito panteísta mesmo pois acho surreal esse papo de se Deus existe ou não . Esse "existir" que se pretende crer ou não, me remete sempre a acreditar em alguém que não vejo e não conheço porque está em algum lugar longe e desconhecido, que pune e recompensa, e que só vou ver e conhecer se seguir certas regras.

O fato é que eu olho pra fora e vejo a existência de Deus, olho pra dentro e vejo a existência de Deus. Simplesmente porque tudo existe. É quase lógico.
Penso que só me falta experienciar Deus como sendo Eu mesmo, porque no meu entender (e no meu sentir e no meu intuir) Deus é absolutamente tudo - corpo e mente, matéria e espírito, bem e mal, certo e errado, tempo e espaço, vida e morte.

Mas Deus é, para mim, principalmente, a Consciência e a Inteligência subjacentes a absolutamente tudo no Universo.

Consciência essa que em função de eu ainda trazer um inconsciente cheio de pendências e questões não resolvidas, equilibradas e integradas, ainda não consigo experienciar como sendo eu mesmo.

Entre quem EU SOU e como eu ainda humanamente estou, existe muito passado a ser curado.

E isso, na minha opinião, não tem nada a ver com existir ou não - já que a existência é óbvia - mas tem a ver com experienciar-se Um com toda a Vida.

E não acho que eu precise ter a fé cega que aprendemos que devemos ter.. Acho que eu apenas preciso ter olhos para ver, inteligencia para entender, sensibilidade para sentir e intuição para perceber, e é assim que eu forjo a minha fé.


quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

MACONHA: PLANTA SAGRADA, RECREATIVA OU VÍCIO ?


Já tem um tempo que ando querendo compartilhar as minhas reflexões sobre a adorada/odiada erva, em função do movimento que venho observando em relação à sua legalização.


Antes de expor minhas opiniões, gostaria de dizer que estas ideias são fruto dos meus 61 anos de vida, 40 anos como estudioso, pesquisador e praticante da espiritualidade, um bom tempo como usuário de cannabis, algum tempo como ex-usuário e 20 anos como terapeuta.


Nada disso me confere – nem eu pretendo – ser conclusivo nem portador da verdade, mas acho que minha vivência e experiência me confere algum conhecimento de causa e alguma isenção para poder refletir sem estar necessáriamente falando só besteira.


Também não pretendo aqui defender nenhuma posição, nem pró nem contra nada, apenas refletir e questionar.


A primeira coisa que me chamou à atenção foi a polarização que parece ter se criado: de um lado os setores que colocam a erva no mesmo saco que as outras drogas e demonizam tudo exorcizando qualquer possibilidade de diálogo, e muito menos, de liberação.


Por outro lado, a galera do “grow room” que parece panfletar sua causa se escondendo atrás das vantagens medicinais da planta (que certamente existem e está comprovado).


Essa - me perdoe a galera engajada - hipocrisia, me incomodou mais do que os xiliques xiitas dos caretas histéricos e cannabinofóbicos.


Eu sempre achei que o mais honesto é que o pessoal usuário fizesse sua campanha pela liberação advogando explícita e abertamente o uso recreativo, como acontece com o uso do álcool.


Bem, mas minha reflexão vai mais além.


A partir do meu know-how (que coloquei acima, e que, repito, não pretende ser conclusivo ou dono da verdade), eu percebo que existem 3 formas – ou 3 motivadores – de se usar a planta (estou excluindo aqui o uso medicinal):


1. O uso sagrado:
Realmente a cannabis sativa (e a indica) é uma planta sagrada em várias culturas, como por exemplo, na India e na África. Mas até onde eu saiba, o uso sagrado de plantas que alteram o estado de consciência, é restrito a cerimônias e rituais (ou a settings terapêuticos) para fins de cura e de expansão da consciência. E isso configura um uso esporádico. Ninguém faz cerimônias e rituais todo dia. E com certeza uma cannabis cheia de agrotóxicos e de energia de crime, como a que é vendida pelo tráfico, não se prestaria a trabalhos espirituais e terapêuticos.
No próprio âmbito das plantas sagradas, das plantas de poder, como o ayahuasca, já vi muita gente usando a planta no dia-a-dia fora do contexto ritual, numa explícita "troca de droga", tipo "não cheiro mais cocaína, não bebo mais, mas encho a cara dessa planta porque ela é sagrada, então tudo bem".


2. Uso recreativo:
Como o nome diz, uso recreativo é quando se usa alguma substância alteradora da consciência em situações de lazer. Tipo fumar um para ir a um show ou a uma festa, por exemplo, como muita gente faz com as bebidas. Isso também configura um uso esporádico. Ninguém vai à festa e show todo dia nem está o tempo todo de férias. E o termo uso recreativo também não significa que representa necessáriamente um conceito totalmente inócuo, pois muita gente se tornou alcoólatra (ou viciado em cocaína) a partir do uso recreativo. E o uso diário de qualquer substância com alcalóides de alguma forma, em algum tempo, traz danos à saúde.


3. Dependência química:
Como toda substância que possui alcalóides, a cannabis promove alguma dependência. Provavelmente não física, mas com certeza psicológica. E esta muitas vezes é mais difícil de tratar e curar do que a física, a exemplo da cocaína e do tabaco que produzem uma profunda dependência psicológica (além de produzirem ao longo de muito tempo de uso, também dependência física).
Como grande parte dos usuários de cannabis são usuários diários, podemos ver que este tipo de uso não se encaixa nem em uso sagrado nem em uso recreativo.
O uso diário de substâncias que alteram o estado de consciência (e não importa se é cannabis, tabaco, álcool ou cocaína) vem geralmente atender, não à expansão da consciência ou a cura, mas à fuga e a anestesia de sofrimentos da mente e da alma.
Ninguém altera constantemente (e impunemente) seu estado de consciência por razão nenhuma, ou apenas para se recrear.
Ignorar este fato é desconhecer o básico do funcionamento do ser humano, da sua psique e da sua espiritualidade.
E me parece que enquanto não se tiver coragem de encarar, expor e questionar abertamente esse fato, vai-se continuar sem se conseguir acessar que dores são essas que fazem com que se precise usar constantemente substâncias inebriantes para se anestesiar, para amenizar a dor. E obviamente, enquanto se anestesia, não se cura.


Enquanto uma substância funcionar como muleta para se sobreviver sem sofrer (e muitas vezes isso é sutil ou inconsciente), ou para se ser mais criativo ou produtivo (você consegue apreciar a natureza, ouvir musica, fazer amor, pintar, compor, sem fumar?) a verdadeira liberdade não é possível.


É mais rápido (e mais volátil) produzir o efeito de fumar um baseado do que conquistar, por exemplo, os resultados da meditação ou das terapias.


E vai se continuar a gastar muito neurônio e muita saliva para se continuar tecendo e expondo a tão conhecida teia de argumentações no sentido de convencer aos outros (e a si mesmo) que tudo bem fumar todo o dia, porque afinal de contas, maconha faz menos mal do que cigarro e bebida e é melhor do que tarja preta...


É importante salientar também que o conceito do que seja “droga” pode ser extendido a muitas atividades consideradas saudáveis, quando elas se tornam instrumentos de anestesia e compulsão.


Hoje, por exemplo, temos instituições tipo AA para comedores compulsivos, sexólatras, malhadores de academia, usuários de games e informática, etc.


Então, legalizar sim. Mas com coragem, honestidade e humildade para se olhar para a sua própria sombra. Só assim a cura e o crescimento acontecem.